O fim do horário nobre?

Lembro que na minha infância quando as propagandas passavam durante as novelas das 6h e a das 8h eram sempre de grandes companhias e instituições. Hollywood, Free, Itaú, Ford, VASP, VARIG e, de vez em quando, uma propaganda do Governo Federal aqui e outra ali. Meus pais comentavam que o motivo era o "horário nobre", um horário onde o público "mais selecionado" e com dinheiro no bolso, estava em casa e parava para ver a TV. Isso, segundo os suplentes de marketeiros que eu tinha em casa, justificava o alto preço do horário dos comerciais e, conseqüentemente, as grandes empresas que se apresentavam. Obviamente, fazia sentido. Coisa que só descobriria muito tempo depois. Mas se pararmos pra pensar, onde está o horário nobre hoje?

Essa é a pergunta de um milhão de dólares para todo e qualquer analista de mercado. A TV perdeu, nos últimos 20 anos, seu status supremus de "última coca-cola do deserto" por diversos motivos.

1º) O surgimento de novas tecnologias da informação. O grande furo de reportagem aparece primeiro na internet para só depois alcançar a grande massa através das TVs. No episódio "a morte de Michael Jackson" fiquei sabendo da informação por um SMS, enviado pelo meu cunhado, solicitando confirmação do fato. Na mesma hora no escritório colocamos três notebooks conectados a portais de informação: Terra, Globo e LATimes. A confirmação chegou primeiro por um site de revista de fofoca americana. Apertávamos o F5 para atualizar as telas concomitantemente. Dentre a mensagem e a confirmação da morte não se passaram mais de 40 minutos.

2º) O público está mais exigente. As notícias antes facilmente digeridas, hoje acabam passando por um crivo maior. A necessidade de confirmação das reportagens pelas novas tecnologias de informação é quase um direito de defesa do cidadão internauta. Michael morreu, mas só porque ficou confirmado em dezenas de sites e não porque alguém me falou.

3º) Todos querem conforto e flexibilidade nos horários. Por que sair correndo pra casa pra ver o casal Bonner divulgando suas notícias mastigadas ao seu público ("carinhosamente" batizado de Hommer Simpson, pelo Willian), se podemos chegar bem mais tarde e assistir a tudo pela internet, com comentários dos internautas, fórum de discussões e análises críticas de diversos jornalistas sobre as notícias e outras formas de interação?

4º) O baixo nível das novelas. Não me refiro somente a toda poderosa Rede Globo, englobo todas. Todas as mulheres da minha família marcavam seus compromissos com quem quer que fosse somente depois da novela das oito. Perder um capítulo era ter a certeza de não saber o que dizer no dia seguinte na roda de amigas do salão de cabeleireiros. Hoje essa mesma mulherada, quase não acompanha às novelas. Talvez, por causa da repetição ou mesmo falta de criatividade dos autores e do público também. Lembro que durante a novela "A Favorita", o autor teve de mudar a novela e apresentar logo a vilã, pois o público estava deixando de ver a novela por causa da falta de um posicionamento mais direto dos personagens.

5º) A segmentação dos mercados. Depois das análises do mercado constatou-se que a propaganda em massa, apesar de eficiente em alguns casos, não consegue atingir a públicos específicos de maneiras diferenciadas.

6º) Mais ensino, menos novela. Com a proliferação das faculdades particulares, milhões de jovens e adultos passaram a trocar o conforto da poltrona por uma cadeira de estudante universitário noturno.

7º) O direcionamento do assunto. De que me importa se a chuva no Nepal acabou com a plantação de arroz ou ainda se um ursinho ficou preso no gelo no Alaska? Essas informações, apesar da minha comoção com os plantadores e com o pobre animal, não acrescentam em nada a minha vida. Preferiria ver Nizan Guanaes e Washignton Oliveto falando sobre as projeções de 2010 e 2011 para o mercado publicitário. A internet nos dá essa possibilidade de escolha de programação. Vamos atrás daquilo que realmente nos interessa e não ficamos passivos hipodermicamente recebendo notícias. Somos muito mais que a mão no controle remoto, somos os senhores da programação, quase o editor chefe da redação. Selecionamos o que nos interessa e não perdemos tempo com o pobre urso.

O grande ditador de verdades com antenas

Todos esses dados serviram apenas para mostrar que o horário nobre, apesar de sustentado por muitos especialistas, simplesmente morreu. Hoje, para o terror dos analistas de mercado, quem faz o horário nobre é o público. Conheço pessoas que não sabem nada sobre as TVs fechadas e tem pavor de TV aberta. Uma professora confessou-me que não tem TV em casa, pois enxerga a TV como um aparelho de manipulação. Esse "grande ditador de verdades com antenas", apesar dos esforços em se renovar, parece perder cada vez mais espaço. Não vai acabar, óbvio, mas perderá ainda mais a sua importância.

O horário nobre, caros amigos, quem faz somos nós. Onde você lê suas notícias? O que você procura para se distrair? E o principal, qual o seu horário disponível para a televisão?

Atentemo-nos, senhoras e senhores, para essa informação. Horário nobre, agora, é algo quase particular. Cada um tem o seu. O meu, informo a grande mídia que queira me encontrar preso em frente à TV, é entre 22:30h e 2 horas da manhã. E o seu?



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