A cultura é nova, Calem a boca velhos!

Hoje me dei conta de algo que talvez nem mereça reflexão. Mas como diz o sábio dito popular: "mente vazia é oficina do diabo". Felizmente, o "demônio" em questão recebe o nome de CENSO CRÍTICO, em alguns casos quem o possui é visto, sobre alguns aspectos, como o próprio mal. Porém,o século das trevas, sedimentado por esta lógica arcaica e catolicísta, foi colocado há muito tempo em seu devido lugar. Não nos cabe, portanto, em pleno século do conhecimento rotular qualquer tipo de coisa calcado em maniqueísmos.

Recentemente na revista METRÓPLE tive acesso a matéria "volta pro vila velho!" que trata sobre a CRISE da cultura NA BAHIA (é incrível, agora virou modismo, tudo é crise!), dentre outras coisas, pessoas que são consideradas expoentes da cultura DE SALVADOR, expressam toda sua indignação com a Secretaria de Cultura DA BAHIA. A exemplo João Ubaldo Ribeiro (a quem, particularmente, considero um cérebro criativo e genial) diz categoricamente que a administração da Secult é idiota, irresponsável, etc. Promete ainda "denunciar aqueles ladrões, filhos de uma puta de crime cultural". Lógico, todo cidadão brasileiro tem o direito de expressar suas opiniões sem que lhe cerceiem de qualquer modo. A própria constituição brasileira nos garante isto. Mas todos sabem que os cidadãos baianos, em sua grande maioria, que não tiveram acesso ao grande nicho do saber, acabam seguindo cegamente, por pura irresponsabilidade e incapacidade de criar seus conceitos, àqueles a quem consideram como FORMADORES DE OPINIÃO; e o João Ubaldo é isto.

Suas palavras ácidas são, no mínimo, prematuras, afinal são apenas dez meses de governo petista. É um fato que o valor simbólico, histórico, cultural e econômico que o Pelourinho desempenha, nunca será apagado e sob hipótese alguma um administrador público tentará esquecer isto. Mas resumir a cultura baiana ao Pelourinho, Teatro XVIII e Fundação Cultural Jorge Amado como parece ser feito na matéria em questão, é além de erro geográfico, no mínimo, síntese ridícula e mal feita do que é a riqueza popular de um estado como o nosso.

A Bahia passou por décadas de atraso cultural, centralizando todo o fomento, ou grande parte dele, na CIDADE DE SALVADOR. É, no mínimo, compreensível que o governo petista esteja sendo bombardeado por uma série de "senhores feudais" ou vassalos culturais de nosso estado. Por décadas vivemos no ostracismo intelectual, os mesmo rostos há muitos anos representam a Bahia. Resumiram o nosso povo a um número seleto de pessoas famosas que conseguiram fama por puro esforço seu e capacidade intelectual, é verdade. Mas será que já não passamos da hora de favorecer, através de políticas públicas, a criação de um novo panorama de intelectuais da/e na Bahia? Novos Gis, Betânias, Gais, Caetanos, Joãos, Jorges?

Quanto tempo levaremos até que se rompa as vis estruturas do carlismo, feitas de tanto sangue e luta daqueles que não venderam sua alma? Volto a colocar, não se trata do maniqueísmo Carlismo X Petismo (guardada a licença poética das palavras), mas se os governos anteriores passaram sem nenhum, OU POUCO PROTESTO, por que não permitir que um novo modo de governo seja implementado? O pedido não é para que cessem as críticas, elas são necessárias e bem aceitas, mas perdem todo seu valor quando envoltas por antipatias egocêntricas a um novo governo ou a pessoas que o representam.

O que deve ser mais importante: a eternização de ícones culturais de nosso estado, ou a criação de uma estrutura que nos prepare para que encontremos expoentes assim em cada esquina de nossa Bahia? A cultura pode ser colocada de lado e, deve ser, quando a idéia é dar a verdadeira identidade a um povo, mas não pela simples resposta à pergunta da canção "o que é que a baiana tem?", esta é a identidade de verniz com o qual o grupo político que antecedeu pintou nosso povo, e está quase solidificada. Ela foi pré-moldada, pré-fabricada e prontamente embalada para turistas consumirem como um "fast food cultural". A verdadeira identidade deve perpassar esta lógica, deve estar irraigada nas entranhas de cada cidadão esquecido e marginalizado deste estado, deve passar pelo reconhecimento do valor simbólico de cada indivíduo dentro da coletividade, é isto que sintetiza a arte, a sensibilização de cada ser "micro" envolvido no "macro", e não um discurso no qual aparece como sentimento mais relevante, uma indignação por não ter a instituição que se dirige, amparada financeiramente de forma paternalista ou por simples antipatia.

O Pelourinho sempre me pareceu um monumento histórico feito para turistas. É importante que sejamos reconhecidos no exterior e fora da Bahia pela grande diversidade cultural que reina aqui, mas isto não pode ser feito seguindo uma lógica quase colonial, onde a metrópole deve ser abastecida por nós, enquanto colonos, que receamos que um dia eles não mais viessem. Cultura é troca, é experimentalismo, diversidade, e nunca uma será colocada em sobreposição a outra, ela é horizontal!

O que a SECULT tenta fazer hoje, é uma revolução nos padrões de como era, até, então, fomentada a cultura em nosso território. NÃO É A SOLUÇÃO PARA TODOS OS PROBLEMAS, MAS É SEM SOMBRA DE DÚVIDA UM NOVO MODO DE OLHAR AS DISPARIDADES CULTURAIS EXISTENTES A DÉCADAS.

Cabe a Secretaria dar subsídios para que ela aconteça em todo e qualquer lugar do ESTADO DA BAHIA, inclusive no Pelourinho, mas não somente nele. Aos artistas, comerciantes, ou cidadãos comuns, é dada a tarefa de criar estes mecanismos, criticar, apontar falhas, dar possíveis soluções, aproximar a população do universo da arte, e respeitar um novo modo de governo; por que ele, e todos seus representantes, apontam um novo rumo cultural para TODO O ESTADO e alcançaram o poder por vias legais. E desejos mesquinhos pela retirada de qualquer membro não serão acatados, assim espero, se não for democraticamente ansiado pelo povo DO ESTADO DA BAHIA.



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