27/03/09 - Nada a comemorar

Nada a Comemorar

Foi-se o tempo em que comemorávamos o mês da poesia, do teatro e do circo, em tempos difíceis, de outrora, que na verdade nem tão distantes os são, podíamos escancarar nossa revolta em invasões, passeatas e recitais por todos os cantos e recantos da nossa grande Camaçari. E olha que naqueles tempos não existiam a Cidade do Saber, a tão sonhada e esperada Secretaria de Cultura, nem mesmo um Governo ?democrático?, como o que vivemos hoje no município. À custa de lutas incessantes e de batalhas infindas colocávamos o ?bloco na rua? e o dia 14 de março jamais fora esquecido. As ruas, as praças, os transportes coletivos, o terminal rodoviário da cidade, o antigo cinema, as feiras livres, as escolas públicas todos eram transformados em palcos para recitais memoráveis. Tempos bons aqueles...
O dia 27 de março, dia Internacional do Teatro e Nacional do Circo, jamais passou despercebido e sem brilho como nos últimos dois anos, na qual não se viu nenhuma manifestação notória para justificar, inclusive, as 130 mil pessoas que, segundo dados da própria Cidade do Saber, tiveram contato com a arte naquele espaço e os mais de 14 mil atendimentos do grande complexo de educação, esporte e cultura. Uma pequena caminhada em direção à Praça Montenegro foi tudo que aconteceu no mês de março deste ano, para comemorar datas tão históricas e importantes para os militantes da arte alternativa do município, do estado, do país e do mundo. Na noite do dia 27, dentro do grande Complexo da Cidade do Saber, aconteceu a distribuição do prêmio concedido pelo Jornal Camaçari Notícias a Cidade do Saber. Na platéia, viam-se poucos ?gatos pingados? do movimento cultural de outrora e muitos funcionários públicos, dentre eles o prefeito e a primeira-dama, os cento e tantos funcionários do Complexo, representantes de alguns grupos e de entidades, os exibicionistas de plantão e o público efetivo daquela casa e dos espetáculos ali exibidos.
Não pude e nem posso deixar de manifestar a minha insatisfação pelos últimos acontecimentos, por uma questão pura e simples: sou parte da coisa e da causa cultural e do próprio governo, pois o ajudei na medida do possível, a efetivá-lo no poder. Somos acima de tudo precursores de um movimento, que apesar da falta de estrutura e de apoio público, funcionava e jamais deixou de se manifestar no mês de março, por todos os anos. Juntando as fagulhas, tendo como base os números gigantescos dos atendimentos da Cidade do Saber, a grandeza da merecida premiação oferecida pelo Jornal Camaçari Notícias, com o que vimos na prática, a começar pela manifestação comemorativa ao Dia do Teatro e a festa de premiação do Complexo, cabe-me enxergar por não ser cego nem doido que alguma coisa está errada e é preciso alguém se manifestar contrário aos fatos, até para que aconteçam as melhorias planejadas e buscadas pela competente equipe da Cultura do Município, a qual se inclui o time da Cidade do Saber.
Não podemos apagar da história do município a própria história. Não podemos esquecer das lutas e batalhas travadas, muitas vezes sem nenhuma guarida e/ou estrutura, pois como camaçariense que sou e responsável, quer queiram ou não, por grande parte dos acontecimentos ligados as artes alternativas deste município, quiçá do estado, calar-me. Diante de uma prova inequívoca de barbárie conceitual, não posso fechar os olhos e fingir que não estou sendo enganado, de alguma forma, pois a prática e os fatos são incontestavelmente irrefutáveis.

Wilson Bizerra
Dir./Presidente Ca&Ba



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