Oxente entrevista a cantora Roberta Leal da African Bahia

Formada a cerca de um ano, a banda African Bahia revela em seu 1º CD a mistura empolgante da Axé Music e dos ritmos africanos. Quem nos fala dessa fusão rítmica e da formação do grupo é a baiana e bem-humorada Roberta Leal, cantora da banda.

Mônica França, jornalista do Jornal Oxente: Quem são as pessoas que fazem parte do African Bahia? E como vocês se conheceram?

Roberta Leal, cantora da Banda African Bahia: A banda é formada por sete componentes. Eu no vocal, temos dois percussionistas, que são Toy Fernandes, Marquinhos Show e Bóka Reis, Diego Moreno no baixo, na guitarra Chaguita, teclado Billy Rasec e Armando Deolly na bateria. A direção musical da banda é de Bruno Nery, que toca no Vixe Mainha. A forma como nos conhecemos foi a seguinte: eu toquei com o baixista que conhecia o baterista e o tecladista conhecia o guitarrista, daí nos juntamos e formamos a African Bahia, mas parecia que a gente já se conhecia há séculos. A afinidade e sintonia entre nós é muito boa.

Oxente: Há quanto tempo estão juntos?

Cantora: A African Bahia tem nove meses de formada, mas na ativa tem cerca de seis meses.

Oxente: E o por quê, inclusive, desse nome African Bahia?

Cantora: Quando eu pensei no nome queria algo que ligasse à Bahia e pra mim esse nome foi o que melhor lembrou os dois lugares e a Axé Music, até, porque o ritmo baiano tem mais haver com a África do que imaginamos. A base percussiva musical vem da África. Nós baianos temos uma influência grandiosa da África em nossas vidas. As cores que a gente veste, as argolas que a gente usa, toda nossa incrementação, o jeito de se portar, o jeito de falar, tudo tem uma influência que vem de lá. Além do mais, sou de sagitário e sagitário é o signo mais místico do zodíaco, então fui fazer numerologia sobre o nome da banda. Saíram várias opções, mas um em especial que foi o African Bahia, o qual escolhi e que caiu muito bem.

Oxente: Geralmente vocês tocam onde?

Cantora: Estávamos tocando em uma casa de shows daqui de Salvador, depois fomos para Aracaju e agora de volta estamos vendo outras casas pra continuar o trabalho, embora a dificuldade seja grande. Não temos empresário e absolutamente, quase, nada. Tudo somos nós. Nós que corremos atrás de tudo. Eu estava, inclusive, falando sobre isso com ela (se referindo à produtora, Bárbara) como eu estou cansada. São tantas coisas pra gente fazer e resolver que não paramos nunca. Tudo é African Bahia. Música, arranjos, presença de palco. Minha vida gira hoje em função da banda. É uma luta constante. Mas tem de ser, se não lutar não vence. Minha avó sempre diz isso. Quem não luta, não vence nunca.

Oxente: Como começou sua história com a música?

Cantora: Menina, eu sou ousada. Isso é de outra encarnação. Eu acho que você não vira, você nasce artista. Eu acho isso mesmo. Vim com o dom de cantar. Desde pequena sempre gostei de aliar dança com música. Eu comecei dançando balé com três ou quatro anos, mais ou menos, depois acabei indo fazer dança moderna, depois jazz e por último afro. E, nesses grupos de dança eu não só dançava como cantava também. Lembro que ainda criança pegava o machucador de minha avó, porque eu não tinha microfone, botava os discos de minha mãe e ficava imitando os cantores. Eu ouvia muito MPB, Elis Regina, Clara Nunes, Alcione e muitos outros artistas, como Beth Carvalho, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Betânia e Gal Costa, até conhecer os artistas da minha geração, como Marisa Monte, que eu sou apaixonada. Uma outra artista que aprecio e que não é uma cantora muito conhecida, mas canta muito bem, é Jane Duboc. Ela é reconhecidíssima lá fora, aqui infelizmente não. Isso é triste para um artista, não ser reconhecido em sua própria terra... Mas, voltando ainda para minha história musical, foi assim que eu aprendi a cantar, ouvindo outros cantores. Embora, depois eu tenha passado por escolas de música com Neto Costa, conhecido por Netinho, bastante conhecido no meio e depois fui para Ana Paula Albuquerque, que é uma cantora do Pará, mas mora aqui há muito tempo. Mas quando fui até esses profissionais eu já cantava em trio elétrico. Fui mesmo para aperfeiçoar. Tinha medo de perder a minha voz no sentido de perder a identidade dela porque eu ouvi algumas cantoras que antes da aula de canto a voz era uma coisa e depois virou outra. Existia técnica, mas a voz estava diferente. Isso eu não queria para mim. Hoje faço, também, acompanhamento com uma fonoaudióloga, que é a Drª Gabriela Almeida, para cuidar da minha voz. Trio elétrico é muito puxado e o cantor tem que cuidar de si.

Oxente: E qual a sensação de estar em um trio elétrico?

Cantora: Muito boa. A primeira vez que eu subi num trio pra cantar foi na Lavagem do Bonfim, que eu fazia parte da Banda Acadêmicas, que depois virou Banda AH, e puxamos um bloco. Foi logo no finalzinho da Lavagem do Bonfim quando ainda tinha trio elétrico, era festa sagrada e profana ao mesmo tempo. Já participei do carnaval com o Bloco Acadêmicas, na Banda Acadêmicas (Banda AH), puxei o Pré-datado e puxei o Happy, que é um bloco infantil e foi minha grande experiência com criança. É divertido e diferente... Por um tempo morei em Brasília e lá eu abri o show de Zezé di Camargo e Luciano. Nossa! Era uma multidão a perder de vista, mas estar em um trio elétrico não tem nada igual. A minha vida foi toda ao contrário porque eu comecei cantando para grandes públicos e depois fui para barzinhos.

Oxente: Fala um pouco mais sobre os trabalhos artísticos que fez.

Cantora: Engraçado isso porque quando estávamos fazendo o site, o rapaz da Netuno Design me pediu um brifieng e eu fui buscar as informações nos meus releases. Só aí me dei conta do tanto de coisas que já tinha feito, mas que com o tempo você acaba até esquecendo. Eu lembro que uma vez viajamos para Ilhéus, ainda com a Banda Acadêmicas, e isso foi na véspera do show, era a micareta de Ilhéus. Quando chegamos na cidade, de cara recebemos a notícia que iríamos puxar o bloco de Márcia Freire naquele dia porque tinha acontecido algum problema e ela não poderia mais tocar, teríamos de arrastar o folião dela.

Oxente: Uma responsabilidade muito grande.

Cantora: Eu não consigo ver dessa forma porque é tão prazeroso cantar. Claro que existe a responsabilidade e eu sou muito rigorosa quanto a isso. As pessoas cobram de mim e eu cobro das pessoas que trabalham comigo. Eu acho que quando nos comprometemos em fazer algo temos que ir lá e fazer da melhor maneira possível, não dá pra ser meia boca. Mas cantar pra mim é sempre bem-vindo.

Oxente: Você falou que ouvia muito MPB e foi influenciada em casa por esse estilo musical. Sua opção pela Axé Music é por conta da abertura de mercado na Bahia ou opção pessoal mesmo?

Cantora: É uma opção pessoal. E isso que você falou acontece. Alguns cantores tocam esse estilo apenas porque o mercado daqui oferece mais oportunidade. No carnaval de Salvador desse ano, por exemplo, não tocamos justamente pela falta de oportunidade.

Oxente: Fale-nos sobre o álbum de vocês e a música de trabalho.

Cantora: Esse é nosso primeiro CD e ?Casa de Negão? tem sido nossa música de trabalho, uma música linda, uma poesia que fala da Bahia. Ela é de André LDP, ele tocou no Bombalanço e hoje em dia tem seu próprio grupo, chamado Sangue Brasileiro. A outra música é ?No Chão?, de Augusto Conceição, renomadíssimo compositor da música ?A Galera?, fez ?Bug Bug Bye-bye?, tem música gravada pelo Araketu e por Claudia Leite, tocou e cantou na Timbalada e, temos também, ?Pipoca?, música de Sérgio Rocha, Adson Tapajós e Zeca Brasileiro. Sérgio Rocha é o guitarrista de Claudia Leite e esse trio faz muita música pra ela, como ?Extravasa?, ?Cai Fora?, mas são muitas músicas que não dá pra decorar. Queremos apenas que as pessoas gostem do trabalho da African Bahia, que ouçam nossas canções porque foi tudo feito com muito carinho, cada arranjo pensado, cada música escolhida. Fizemos um trabalho de pesquisa até porque a banda faz o resgate de músicas antigas. Temos Banda Mel, da época de Boock Jones, Jaciara, músicas da década de 80 que formaram a Axé Music e trouxeram consigo letras bem compostas, mas temos também músicas atuais, a gente faz uma mesclagem. Tem Gilberto Gil, Caetano Veloso, tem Carlinhos Brown, um mestre em termo de música. Puxando mais para o lado africano temos o semba, um ritmo que é um samba para os africanos, extremamente conhecido por lá. Inclusive, é um ritmo que vem antes do samba, e foi através do semba que o samba surgiu. É um ritmo muito gostoso, ele lembra algo latino, caribenho. Muito bom de dançar.

Oxente: Como está a parceria da African Bahia com a Fundação CA&BA?

Cantora: Eu conversei com Wilson, que é o presidente da Fundação, ele é um homem muito ousado, bem parecido comigo. E tem que ser ousado mesmo, determinado, persistente, senão não vai a lugar algum e essa é uma parceria que vai render bons frutos. Inicialmente estamos tendo essa oportunidade de divulgar nosso trabalho no Oxente e vamos ter, também, uma parceria com o Ministério da Cultura para o lançamento desses CD e DVD, inicialmente, e depois um trabalho em conjunto de participação e desenvolvimento cultural em apresentações promovidas pela Fundação, além de muitos outros projetos que, por enquanto, é surpresa, mas o público pode aguardar que vem coisa boa por aí.

Oxente: E quais são suas expectativas em relação a essa parceria e os projetos que já têm para serem trabalhados?

Cantora: A melhor possível. Quando você une trabalho, profissionalismo, ética e respeito às coisas acontecem, elas fluem. Eu tenho certeza que isso vai dar certo. Acho realmente que vai render bons frutos para todos porque eu acredito que para algo acontecer bem tem que integrar as duas partes, senão não vale à pena. Todo mundo tem que ganhar, todos que estão envolvidos com o projeto. E quando eu me refiro a ganhar, não digo apenas no sentido material não, isso também porque a gente precisa e sobrevive do material, mas profissionalmente, intelectualmente, pessoalmente crescemos na vida, e, é dessa forma que a CA&BA e a African Bahia estão trabalhando, em prol do crescimento. Porque cada um de nós não cresce sozinho, só crescemos com outras pessoas.



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